sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Bentinho
O enterro do querido Escobar foi muito triste mas ao mesmo tempo muito curioso. Minha Capitu chorava e o encarava de uma maneira não profunda que me fez pensar coisas estranhas sobre ela e meu amigo. No fim do esterro pedi a José Dias que levasse Capitu e a Prima para casa, e fui andando mesmo, pensativo, com minhas cismas e com minha imaginação. Só conseguia pensar nisso, por que ela olhava daquela maneira? Por que aquele oceano de lágrimas? Tudo bem, ele era nosso amigo querido, quase da família, mas, foi diferente. E eu só conseguia pensar nessas asneiras, nessas possibilidades.Assim que cheguei em casa Capitu veio a minha recepção, com um aspecto diferente do que eu havia visto no enterro. Mesmo assim tudo começou a me irritar, estava sempre só, sempre pensativo, e meu pensamento estava sempre em Capitu, Escobar, e até mesmo em Ezequiel, que para o meu pavor estava cada dia mais parecido com Escobar. Era terrível, sempre que o via lembrava do falecido, comecei a me afastar do meu filho. Cheguei até a ter vontade de me matar, mas Ezequiel me impediu com um gentil abraço. Capitu chegou depois e se irritou com a situação e veio com o assunto de separação. Capitu e Ezequiel foram morar na Europa, e eu ia apenas visitá-los. E com o tempo as visitas diminuíram, as correspondências diminuiram e em fim eles deixaram de fazer parte dos meus dias, da minha vida.Muito tempo depois Ezequiel veio me visitar, estava igual a Escobar, o jeito, o estilo, o sotaque, a voz. Disse a ele que daria dinheiro à ele para que ele cumprisse suas vontades e seus programas, para que ele não voltasse mais e que eu não visse mais sua semelhança com o finado. E ele morreu em uma de suas expedições penosamente, e junto com ele meus pensamentos também foram morrendo aos poucos, era apensa uma questão de tempo. Então vivi só, mas não infeliz, vivi apenas com meus pensamentos, como já estava fazendo há um tempo. Até hoje não sei qual a realidade, não havia esquecido Capitulina, aquela menina dos olhos de jabuticabas, com olhar sereno e puro, o meu maior amor. Mas também não havia esquecido do meu melhor amigo Escobar, que me deu o ombro e as mãos quando eu precisei. Mas não adianta, nunca saberei o que realmente aconteceu.

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